domingo, 7 de novembro de 2010

Pseudo-soneto-mirim.

A poesia de eufemismo reverso
Meramente por se fazer literatura
Porque tanto vai além da ternura
Que transporta em si o Universo.

Seja qual for o tamanho do verso
Seja qual for a inspiração do autor
Já que sempre se escreve de amor
Ao vocabulário falta ser diverso.

Que o leitor possa sentir ao ler
Tudo de mais indescritível
Que dominou o autor ao escrever.

E que a inspiração se manifeste
Antes que qualquer receio ou juízo
A ingenuidade espontânea conteste.

He comes... And he goes…

As inúmeras partes de um coração
Fanático pela efêmera euforia dos inícios,
Indiferente ao que já passa rotineiro,
Forte de tão fraco que torna o restante,
Fraco de se apoiar na fragilidade alheia.

As inúmeras partes de uma cabeça
Desejosa do que os olhos conseguem ver,
Dispensando o que as mãos possuem,
Inerte e obstinada porque assim é,
Empolgada e melancólica por quê?

As inúmeras partes de um corpo
Onde, de quando em vez, pousa minha cabeça,
Em que tocam as partes do meu no amor,
E que se esquiva, sai de mim
Para ir lá tão longe, onde vai a alma.

As inúmeras partes de uma face
Aleatoriamente dos sorrisos e da apatia,
Dos olhos que embaraçam os demais olhares,
Do semblante que mente tanto quanto diz a verdade,
O mais singelo e tantas vezes revelado enigma.

As inúmeras partes de uma personalidade
Discreta e notável por onde é mencionada,
Capaz de absolutamente tudo, e tudo mesmo,
E incapaz de tanto.
Imprevisível.

Eu, que tanto dedico a este todo,
Quantas dessas partes amam a mim?

Animalia.

A superioridade estruturada em polegares opositores atrás dos olhos que enxergam pouquíssimo além de um “papel civil”. Seres humanos por assim se afirmarem sob a massa encefálica, em desenvolverem os métodos e técnicas viabilizados pela literatura registrada. Civilizados, organizados, sistematizados, estruturados em... Sociedade?

A tecnologia nos permitiu o inalcançável na qualidade e na oportunidade de vida tal como viabilizou genocídios instantâneos. As relações de troca, antes um compartilhamento de recursos originário de acordos mutualistas, se desenvolveu no modelo econômico explorador e essencialmente competitivo que rege hoje “sociedades” ricas em miséria.

E torna-se pertinente discutir qual é a definição de humanidade e o que nos difere dos demais animais. Os domínios que desenvolvemos sobre determinadas técnicas são os principais recursos que nossas características biológicas de seres humanos nos permitiram. Por outro lado, tais recursos foram, em grande parte, utilizados para garantir a elevação dos pedestais elitizados às custas da marginalização da maioria esmagadora da população.

As relações de sociedade foram tomadas por comensalismo, competição e parasitismo. Não há a divisão de tarefas na luta por um bem comum que é compartilhado e devidamente entregue como fruto de esforço, tão pouco se estabelecem objetivos semelhantes entre os setores em que nos dividimos. A competição acirrada na ambição de se garantir cada vez mais e mais posses e poder nos classifica como parasitas e comensais.

Reduzidos à mera condição de animais justamente pelos recursos de que gozamos para nos distanciarmos de tal condição. Antes estivesse eu falando unicamente das pessoas que defecam, comem e dormem nas ruas. Há, antes disso, a disfunção da massa encefálica, dos polegares opositores, ou de ambos nos homens que batalham pela 23ª casa sem terem ido muito além do portão blindado do único imóvel que ocupam.

A diversidade dentro da humanidade é extremamente necessária ao convívio no sentido de estimular progresso por meio da ambição competitiva e estabelecer relações entre indivíduos que podem oferecer aprendizado e experiências aos participantes. No entanto, o modelo atual tem deixado partes do que seria a sociedade sob os pés da elite priorizada, mantendo disparidades e congelando o progresso geral.

A História se conduziu, até hoje, na alternância de modelos extremistas em todos os ramos da “sociedade”. Há de chegar o momento em que um número suficiente de pessoas note a semelhança indiscutível entre todos os seres humanos e saiba usufruir das diversidades convertendo-as para ferramentas de progresso em comunhão. Há de chegar o momento em que a indigência se intitule “Apocalíptico”, “Paranormal” ou “Desumanidade” ao invés de “Cotidiano” nos cadernos de nossos jornais mais bem-conceituados.
Por Adriana Kimura.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

As partes de um... Todo?

O pessimismo por Clarice Lispector, o amor desmedido de Vinícius de Moraes, o sentimento do mundo em Carlos Drummond de Andrade, a ciência de colégios apostilados pela Abril, a invasão intra-domiciliar da Rede Globo, o evangelho segundo Jesus Cristo, a força nos cabelos de Sansão, a posição de Olga dentro do sexo frágil, o pseudo-conhecimento sob o semblante polido de umas poucas palavras rebuscadas no texto coeso e incoerente.
Frágil na confiança, no amor e na devoção, mas mais forte que os coitados que se apóiam em desrespeitar tais valores.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A manipulação de informações no jornalismo e a estratificação social.

Há aproximadamente 10 mil anos, o mundo da coerência biológica deixava que governasse a natureza selvagem e singela do nomadismo na ausência de um sistema social definido. O comando era do tempo palingenésico, a ameaça das pestes e pragas, a ocupação essencialmente por se manter a vida dia após dia. Posteriormente, o domínio sobre técnicas de produção de alimentos, a introdução das relações de troca, o conhecimento da escrita e o desenvolvimento da ciência foram transformando a humanidade, paulatinamente, no que constitui hoje uma rígida estrutura social na qual cada indivíduo é apenas participante do sistema.

As técnicas agropecuárias foram o primeiro sinal de domínio da natureza pelo homem que aprendia a utilizá-la em prol de si. Tais técnicas foram transmitidas de geração para geração e explicadas, mais tarde, pela ciência. A escrita tornou-se veículo de toda uma bagagem de conhecimentos e descobertas de grandes gênios que perpetuaram suas obras nos registros e documentos históricos. O comércio surgiu pelas trocas que se faziam de acordo com os interesses e posses de cada um. Essa situação foi, cada dia mais, cobrando a formação de uma estrutura social baseada na divisão do trabalho. Cada camada social passou a desempenhar determinado papel para servir à humanidade como todo.

O sistema garante a manutenção dessa grande máquina chamada sociedade. Ele fiscaliza o funcionamento de cada pequena engrenagem, certificando-se de que as pessoas, ao menos em sua grande maioria, sejam mantidas exercendo suas respectivas funções para a geração de riquezas que permitem o poder do Poder, o conforto da elite e a alienação e conformismo dos que servem a essa elite e obedecem a esse Poder. O topo que lucra sobre toda essa estrutura conta com muitos recursos para manter a atividade e combater as revoltas dos subalternos. Geralmente, a manipulação de informações é o mais comum deles.

O acesso à informação e a formação de opiniões são os recursos para a consolidação dos direitos de cidadania e para a formação de identidades pessoais e culturais. A quantidade e a qualidade de informação e a força de opinião classificam os cidadãos entre detentores do Poder e participantes submissos do Sistema. As falhas no sistema midiático, resultantes da lógica de mercado e das ideologias dos condutores da informação, são responsáveis pela formação de indivíduos conformados com a desigualdade que se apresenta no país.

A televisão, que atualmente faz parte das posses da maioria esmagadora dos brasileiros, é o principal veículo de “informação”. Programas sensacionalistas, reality shows, noticiários partidários, novelas adestradoras, propagandas para vender produtos e idéias, religiosidade do conformismo. Até mesmo os jornais e revistas mais bem conceituados apresentam visões tendenciosas originárias dos produtores das notícias. Atualmente, faz-se necessário ensinar os leitores a de fato ler para que haja o acesso à verdadeira informação que proporciona uma formação crítica e independente de caminhos já traçados para trilhar.

A partir do momento em que as pessoas começarem a notar os benefícios que a utilização inteligente de informações proporciona, o conhecimento tornar-se-á viciante e os instrumentos de massificação perderão gradativamente seu valor enquanto ditadores das verdades universais. O estímulo planejado à leitura instruída e crítica aos jovens é o primeiro passo para grandes e inúmeras mudanças no sistema social que nos rege.

Os jornalistas têm como objetivo, não só a informação, mas também acabam por expressar suas visões de mundo e necessitam de chamar a atenção do público. Cabe aos leitores bem instruídos diferenciar a verdadeira informação dos recursos argumentativos e comentários tendenciosos de uma notícia. É a partir de diferentes visões e esclarecimentos lidos, vistos, ouvidos e pesquisados que o leitor formará suas próprias posições a cerca de determinado assunto.

Fala-se na posição do jornalista enquanto transportador de informações objetivo e neutro quanto ao que é noticiado. De fato, os jornalistas devem ter consciência da verdadeira função do jornalismo, que é o vínculo com a sociedade, a cultura e o interesse público. No entanto, a apresentação da visão do jornalista é quase que inevitável, considerando-se que ele, como qualquer outro ser humano, possui uma formação ideológica, crenças e experiências de vida.

Principalmente nos dias de hoje, a participação dos que não são jornalistas na divulgação de informações é bastante acessível. Debates e outras formulações surgem cada vez em maior número na internet. Tornam-se inúmeras as fontes para a obtenção de informações, o que permite a coleção de diversos discursos que, combinados a uma leitura inteligente e crítica, podem motivar grandes feitos e significativas mudanças em muitos aspectos.

A habilitação dos cidadãos a viver de modo consciente e produtivo possibilitaria ao povo a percepção de uma força que ele tem, mas não utiliza por crer nas verdades conduzidas pela elite (Verdades: mentiras muito bem contadas, sustentadas por lideranças persuasivas e alimentadas pelo conforto da alienação). Mantém-se, hoje, a desigualdade social com o desfalque na educação e no acesso à informação tal como se construíram o nazifacismo e a Santa Inquisição, por exemplo.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Clara manhã, obrigada.

A criatura inanimada depositada na carteira do colégio construiu a metódica calada durante cada dia dos anos em que vivi. “E agora, José?”
De Gil Vicente a Carlos Drummond de Andrade, seguido de todos os números dos inúmeros volumes Etapa, Anglo ou Objetivo, acumula-se o pó da prateleira onde ainda se permite singela a presença de um pequeno aparelho de televisão. A cama não se ocupa sequer pela metade com o corpo pequeno que ali se deposita ao final de cada dia. Um violão dorme atrás do guarda-roupa perdido em alguma parte de mim que se sentiu artista dia desses. As paredes são cor-de-rosa como a minha alma há muito deixou de ser. A janela permite uma visão abrangente e superior que não passa da ponta do meu nariz com essa miopia.
E quantos sonhos que sonhei nesse travesseiro eu teria escrito naqueles papeis sobre a cabeceira se... Se a cabeça já não os criticasse e censurasse antes mesmo de tê-los formulado como idéias, sentimentos ou ações? Quantas artistas e cientistas eu seria se não me tivessem feito civil? Quantas partes de mim tentariam fugir da dialética se o mundo não esperasse de mim o cartesianismo?
E justo a mim que sempre pareceu frustrante não saber responder à pergunta “quem é você?” hoje surge uma conclusão de estarrecimento maior. Não ter uma definição pronta, ou melhor, não poder responder com o nome de uma profissão ou o anúncio de alguma ideologia é o melhor que eu poderia ter. Não me resumir em uma palavra... Ainda que isso signifique simplesmente eu não saber quem sou.
Nos últimos meses, cada segmento do meu corpo se esforçou por um objetivo que eu estipulei e, acima disso, a minha cabeça tentou não se lembrar de qual era esse objetivo. A frustração, desde já, perturba-me acima do temor de tentar pelo esforço, acima do risco de ir contra o esperado, planejado e calculado. Acordei com a ambição de fazer algo que definitivamente eu não sei fazer. Não porque não sei, mas porque quero saber. Clara manhã, obrigada.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pobre Macabéa.

Pobre Macabéa,
Estrela tão pequena
Que não brilha,
Que não se nota,
Que não se vê,
Que nem existe.
Ingênua, a coitada
Não questiona,
Vai na vida como é
Porque sempre foi
Como ela viu ser.

Pobre Macabéa,
Em tudo crê,
De tudo sonha,
Tudo permite.
Informação não tem,
Higiene não tem,
Futuro não tem.
Pobrezinha, não sabe,
Mas felicidade não tem.

Pobre Macabéa,
Desculpa-se de tudo.
De não ser macia
Aos pés que a pisam,
De não ser limpa
Às mãos que a bofeteiam.

Pobre Macabéa,
Pobre Mac...
Pobre M...
Pobre de mim.