sexta-feira, 2 de março de 2012
Nostalgia.
Era sim, exatamente o cheiro do sabão que lavava o quintal da tia. Era também o som dos sapatos emborrachados chegando à cama para deixar o beijo de bom dia. Era um fone para cada um, enquanto os lábios cantarolavam e pregavam selos tímidos, escancarados. Era um cartaz à letra iniciante do segundo grau, um passeio entre os muros da escola. Era patinar no shopping e equilibrar bexiga no espeto. E, não sendo, continua a ser.
Memórias de guardanapo.
O copo, tal qual minha cabeça, meio cheio, meio vazio. Mais à frente, dois olhos serelepes de sete anos bisbilhotavam a mesa falante e boêmia. Ora, não seria tão somente aquele punhado de cevada metida num copo. Ali, os sorrisos caminhavam descompassados, despreocupados. Vieram os pijamas, as pernas de índio. Vieram os cabelos amanhecidos e os olhos maquiados de pressa e d...e capricho. Ali, a inocência dos pés que não chegavam ao chão no banco de um bar eram o mesmo que a embriaguez concedendo passe-livre às palavras que não deveriam sair de mãos dadas pelos lábios um tanto soltos demais. Ali, caso perguntassem, entre um gaguejo amolecido e um motivo quase arquitetado, escaparia: era eu.
Dora.
E os pés, a vida toda esparramados pelo chão seco, terminaram por ressecados também. Falo deles que é neles que punha os olhos ao caminhar. Vinham agora metidos em sandálias avelhentadas que por pouco seriam a terra quente dali. Dum pedaço de pano florido fizera-se o vestido de cortes tortuosos na mesma cor do laço que trazia nos cabelos de sol. Desta vez, o corpo magricela, tocado de um brio jam...ais experimentado, animou-se um tanto mais. Postou, com três dedos de cada mão, as madeixas por trás das orelhas, deixando ver um rosto um tanto moço para aqueles pés. Sentou-se frente à mesa, mirando o caderninho com capa de pano e perguntou à senhora do outro lado sobre o preço. Deixou escapar entre os dedos umas cinco moedas e pôs-se a ditar o que levaria a carta ao amado sertanejo. A senhora registrava palavra a palavra o borboletear ansioso do que havia a moleca a dizer. Posso pegar o papel e a caneta um minutin? Agarrou, desengonçada, a caneta e desenhou cheia de si: Doralice.
terça-feira, 12 de julho de 2011
Ponto Cruz
E qualquer dia desses ainda me sai um poeminha de pano
bordado com essas flores
mais tantas borboletas quanto eu puder pintar.
Tal qual raio de sol da manhã no rosto,
uma criança entretida com os próprios sapatos.
Qualquer dia me sai um desses
de lã, linha, linho.
Do novelo dessa minha novela.
Por Adriana Kimura.
bordado com essas flores
mais tantas borboletas quanto eu puder pintar.
Tal qual raio de sol da manhã no rosto,
uma criança entretida com os próprios sapatos.
Qualquer dia me sai um desses
de lã, linha, linho.
Do novelo dessa minha novela.
Por Adriana Kimura.
domingo, 23 de janeiro de 2011
A música.
Nem sempre a banda é boa,
Nem sempre o cantor sabe cantar.
Faz balançar quem tá ali à toa.
Mas ninguém mais vai lembrar.
Tem quem repare na harmonia,
Tem quem estude cada verso.
Tudo se envolve na alegria
E depois some no Universo.
Ainda que a letra diga pouco,
Ainda que o som seja rouco,
Tem a que sempre se quer ouvir.
Por quem esteve ouvindo ao lado,
Quando se fez feliz o magoado,
Que não se vai nem mesmo depois de ir.
Nem sempre o cantor sabe cantar.
Faz balançar quem tá ali à toa.
Mas ninguém mais vai lembrar.
Tem quem repare na harmonia,
Tem quem estude cada verso.
Tudo se envolve na alegria
E depois some no Universo.
Ainda que a letra diga pouco,
Ainda que o som seja rouco,
Tem a que sempre se quer ouvir.
Por quem esteve ouvindo ao lado,
Quando se fez feliz o magoado,
Que não se vai nem mesmo depois de ir.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
"Estou em um estado muito novo e verdadeiro, curioso de si mesmo, tão atraente e pessoal a ponto de não poder pintá-lo ou escrevê-lo."
Se Clarice Lispector teve um dia dentro de si algo que se acreditasse incapaz de traduzir na sua arte, perdôo-me por ontem, com as mãos trêmulas e o pensamento fracassado em tentar idealizar tudo que em mim se configura como o sofrimento que eu não tenho e a complacência que não enxergo, ter simplesmente desistido da arte que se faria ali faltando-lhe ser artística.
De Heráclito a Clarice, dela para mim. Um instante vive fazendo do anterior passado sendo, simultaneamente, devorado pelo próximo. A verdade é que a efemeridade de tudo aquilo que em algum momento é, instala-se no que faz parte do que "somos" (?). Torna-se ali, no instante efêmero, eternidade.
Um instante voluptuoso, angustiante e terno a ponto de não poder artisticá-lo, infinito.
Se Clarice Lispector teve um dia dentro de si algo que se acreditasse incapaz de traduzir na sua arte, perdôo-me por ontem, com as mãos trêmulas e o pensamento fracassado em tentar idealizar tudo que em mim se configura como o sofrimento que eu não tenho e a complacência que não enxergo, ter simplesmente desistido da arte que se faria ali faltando-lhe ser artística.
De Heráclito a Clarice, dela para mim. Um instante vive fazendo do anterior passado sendo, simultaneamente, devorado pelo próximo. A verdade é que a efemeridade de tudo aquilo que em algum momento é, instala-se no que faz parte do que "somos" (?). Torna-se ali, no instante efêmero, eternidade.
Um instante voluptuoso, angustiante e terno a ponto de não poder artisticá-lo, infinito.
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