sexta-feira, 2 de março de 2012

Pastiche.

Correu-me, aos berros:
Uma flor nasceu na rua!
Ora, e que há de ser dela?
Bonina de si mesma, findará,
Inda hoje, numa pisadela.
Mas é uma flor. E furou o asfalto.

Panapaná.

Prosseguiu bem uns vinte minutos o falar ininterrupto da moça. Os cabelos pulavam-lhe sobre o colo entre esconder e deixar ver um decote tímido de renda. O rapaz à sua frente soltava lá suas três palavras de quando em vez e desviava os olhos em direção à TV atrás da moça, como quem procura respirar. Havia já muito a ser dito, mas pouco que se pudesse de fato dizer. Ele levantou e andou ...em direção à porta. Ela ficou sentada e, nem os olhos claros úmidos, nem o corpo que mal se moveu pareceram menos vazios que o copo sobre a mesa. O rapaz pegou um guardanapo perto da porta e desenhou o que não poderiam ser mais que sete palavras. Quando se aproximou da moça, trazia um bofete, um afago ou algo entre isso e aquilo. Deixou o guardanapo entre os dedos dela e tanto bastou para... Se era um poema? O mais lindo que já vi.

Nostalgia.

Era sim, exatamente o cheiro do sabão que lavava o quintal da tia. Era também o som dos sapatos emborrachados chegando à cama para deixar o beijo de bom dia. Era um fone para cada um, enquanto os lábios cantarolavam e pregavam selos tímidos, escancarados. Era um cartaz à letra iniciante do segundo grau, um passeio entre os muros da escola. Era patinar no shopping e equilibrar bexiga no espeto. E, não sendo, continua a ser.

Memórias de guardanapo.

O copo, tal qual minha cabeça, meio cheio, meio vazio. Mais à frente, dois olhos serelepes de sete anos bisbilhotavam a mesa falante e boêmia. Ora, não seria tão somente aquele punhado de cevada metida num copo. Ali, os sorrisos caminhavam descompassados, despreocupados. Vieram os pijamas, as pernas de índio. Vieram os cabelos amanhecidos e os olhos maquiados de pressa e d...e capricho. Ali, a inocência dos pés que não chegavam ao chão no banco de um bar eram o mesmo que a embriaguez concedendo passe-livre às palavras que não deveriam sair de mãos dadas pelos lábios um tanto soltos demais. Ali, caso perguntassem, entre um gaguejo amolecido e um motivo quase arquitetado, escaparia: era eu.
Branca, tal qual os lençóis entre, durante, enquanto e ao redor dela.
Tal qual seu sorriso ingênuo, engenhoso.
Branca como a alvorada, que fissurava as ternas estampas das cortinas inquietas de uma brisa dorminhoca, indo deitar sobre a pele lisa da mocidade.
Branca, assim. Completamente nua.

Dora.

E os pés, a vida toda esparramados pelo chão seco, terminaram por ressecados também. Falo deles que é neles que punha os olhos ao caminhar. Vinham agora metidos em sandálias avelhentadas que por pouco seriam a terra quente dali. Dum pedaço de pano florido fizera-se o vestido de cortes tortuosos na mesma cor do laço que trazia nos cabelos de sol. Desta vez, o corpo magricela, tocado de um brio jam...ais experimentado, animou-se um tanto mais. Postou, com três dedos de cada mão, as madeixas por trás das orelhas, deixando ver um rosto um tanto moço para aqueles pés. Sentou-se frente à mesa, mirando o caderninho com capa de pano e perguntou à senhora do outro lado sobre o preço. Deixou escapar entre os dedos umas cinco moedas e pôs-se a ditar o que levaria a carta ao amado sertanejo. A senhora registrava palavra a palavra o borboletear ansioso do que havia a moleca a dizer. Posso pegar o papel e a caneta um minutin? Agarrou, desengonçada, a caneta e desenhou cheia de si: Doralice.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ponto Cruz

E qualquer dia desses ainda me sai um poeminha de pano
bordado com essas flores
mais tantas borboletas quanto eu puder pintar.
Tal qual raio de sol da manhã no rosto,
uma criança entretida com os próprios sapatos.
Qualquer dia me sai um desses
de lã, linha, linho.
Do novelo dessa minha novela.

Por Adriana Kimura.